sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Para meu amigo Julio



Por alguém que acaba de morrer
59. PREFÁCIO. As preces pelos Espíritos que acabam de deixar a Terra não
objetivam, unicamente, dar-lhes um testemunho de simpatia: também têm por efeito auxiliarlhes
o desprendimento e, desse modo, abreviar-lhes a perturbação que sempre se segue à
separação, tornando-lhes mais calmo o despertar. Ainda aí, porém, como em qualquer outra
circunstância, a eficácia está na sinceridade do pensamento e não na quantidade das palavras
que se profiram mais ou menos pomposamente e em que, amiúde, nenhuma parte toma o
coração.
As preces que deste se elevam ressoam em torno do Espírito, cujas idéias ainda estão
confusas, como as vozes amigas que nos fazem despertar do sono. (Cap. XXVII, n° l0.)
60. Prece. - Onipotente Deus, que a tua misericórdia se derrame sobre a alma de N...,
a quem acabaste de chamar da Terra. Possam ser-lhe contadas as provas que aqui sofreu, bem
como ter suavizadas e encurtadas as penas que ainda haja de suportar na Espiritualidade!
Bons Espíritos que o viestes receber e tu, particularmente, seu anjo guardião, ajudai-o
a despojar-se da matéria; dai-lhe luz e a consciência de si mesmo, a fim de que saia presto da
perturbação inerente à passagem da vida corpórea para a vida espiritual. inspirai-lhe o
arrependimento das faltas que haja cometido e o desejo de obter permissão pata as reparar, a
fim de acelerar o seu avanço rumo à vida eterna bem-aventurada.
N..., acabas de entrar no mundo dos Espíritos e, no entanto, presente aqui te achas
entre nós; tu nos vês e ouves, por isso que de menos do que havia, entre ti e nós, só há o
corpo perecível que vens de abandonar e que em breve estará reduzido a pó.
Despiste o envoltório grosseiro, sujeito a vicissitudes e à morte, e conservaste apenas
o envoltório etéreo, imperecível e inacessível aos sofrimentos. Já não vives pelo corpo; vives
da vida dos Espíritos, vida essa isenta das misérias que afligem a Humanidade.
Já não tens diante de ti o véu que às nossas vistas oculta os esplendores da vida no
Além. Podes, doravante, contemplar novas maravilhas, ao passo que nós ainda continuamos
mergulhados em trevas.
Vais, em plena liberdade, percorrer o espaço e visitar os mundos, enquanto nós
rastejaremos penosamente na Terra, à qual se conserva preso o nosso corpo material,
semelhante, para nós, a pesado fardo.
Diante de ti, vai desenrolar-se o panorama do Infinito e, em face de tanta grandeza,
compreenderás a vacuidade dos nossos desejos terrestres, das nossas ambições mundanas e
dos gozos fúteis com que os homens tanto se deleitam.
A morte, para os homens, mais não é do que uma separação material de alguns
instantes. Do exílio onde ainda nos retém a vontade de Deus, bem assim os deveres que nos
correm neste mundo, acompanhar-te-emos pelo pensamento, até que nos seja permitido
juntar-nos a ti, como tu te reuniste aos que te precederam.
Não podemos ir onde te achas, mas tu podes vir ter conosco. Vem, pois, aos que te
amam e que tu amaste; ampara-os nas provas da vida; vela pelos que te são caros; protege-os,
como puderes; suaviza-lhes os pesares, fazendo-lhes perceber, pelo pensamento, que és mais
ditoso agora e dando-lhes a consoladora certeza de que um dia estareis todos reunidos num
mundo melhor.
Nesse, onde te encontras, devem extinguir-se todos os ressentimentos. Que a eles,
daqui em diante, sejas inacessível, a bem da tua felicidade futura! Perdoa, portanto, aos que
hajam incorrido em falta para contigo, como eles te perdoam as que tenhas cometido para
com eles.
Nota. - Podem acrescentar-se a esta prece, que se aplica a todos, algumas palavras
especiais, conforme as circunstâncias particulares de
família ou de relações, bem como a posição social que ocupava o defunto.
Se se trata de uma criança, ensina-nos o Espiritismo que não está ali um Espírito de
criação recente, mas um que já viveu e que pode, mesmo, já ser muito adiantado. Se foi curta
a sua última existência, é que não devia passar de uma completação de prova, ou constituir
uma prova para os pais. (Cap.V, n° 21.)
61. (Outra) - (1). Senhor onipotente, que a tua misericórdia se estenda sobre os nossos
irmãos que acabam de deixar a Terra! Que a tua luz brilhe para eles! Tira-os das trevas; abrelhes
os olhos e os ouvidos! Que os bons Espíritos os cerquem e lhes façam ouvir palavras de
paz e de esperança!
Senhor, ainda que muito indignos, ousamos implorar a tua misericordiosa indulgencia
para este irmão nosso que acaba de ser chamado do exílio. Faze que o seu regresso seja o do
filho pródigo. Esquece, ó meu Deus, as faltas que haja cometido, para te lembrares somente
do bem que haja praticado. Imutável é a tua justiça, nós o sabemos; mas, imenso é o teu
amor. Suplicamos-te que abrandes aquela, na fonte de bondade que emana do teu seio.
Brilhe a luz para os teus olhos, irmão que vens de deixar a Terra! Que os bons
Espíritos de ti se aproximem, te cerquem e ajudem a romper as cadeias terrenas! Compreende
e vê a grandeza do nosso Senhor: submete-te, sem queixumes, à sua justiça, porém, não
desesperes nunca da sua misericórdia. Irmão! que um sério retrospecto do teu passado te abra
as portas do futuro, fazendo-te perceber as faltas que deixas para trás e o trabalho cuja
execução te incumbe para as reparares! Que Deus te perdoe e que os bons Espíritos te
amparem e animem. Por ti orarão os teus irmãos da Terra e pedem que por eles ores.
______________
(1) Esta prece foi ditada a um médium de Bordéus, na ocasião em que passava pela sua casa o
féretro de um desconhecido.

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